Oregon - E.U.A.

Portland - Oregon

Praias vazias, montanhas desertas, florestas densas e planícies infindáveis. Oregon já foi o lar de tribos indígenas, cujos descendentes têm orgulho nas corajosas façanhas do Chefe Joseph de Nez Perce. Os seus rituais, as lendas de cowboys e índios, bem como o espectacular cenário, ainda fascina os visitantes.

Os meus pés enterram-se numa fina camada de agulhas de pinheiros e no musgo verde brilhante do chão da floresta, enquanto escalo árvores caídas que me arranham as pernas, à medida que prossigo o caminho. O líquen balouça suspenso nos ramos e o ar pesado é perfumado com resina. Estendo o pescoço para contemplar as copas encurvadas das árvores, que se assemelham a uma abóbada de catedral. Em vez da música de órgão, o ar está repleto de vibrações das aves; em vez de a luz cair sob os vitrais, é suavemente filtrada pelos ramos dos pinheiros maciços.


"Veja as cicatrizes nos troncos", afirma Tim Nitz do Parque Histórico Nacional de Nez Perce. Há mais de 150 anos os índios esculpiram formas ovais nos pinheiros de Ponderosa, para deitarem fora as cascas das árvores, de forma a alcançar o seu interior comestível. "Provavelmente faziam chá a partir disto", explica Nitz. Antigamente, o Oregon era um país de índios - uma região fértil, com bons sítios para colonizar, excelentes recintos de caça e rios que transbordam de peixe. Era uma região de planícies infindáveis e florestas atravessadas por poderosos cursos de água, como o Rio Columbia, que ainda hoje separa Oregon de Washington, a sua vizinha a norte.
Vulcões com o topo coberto de neve elevam-se das planícies como pirâmides enormes. Os nativos Americanos veneram as particularidades naturais da região como sítios sagrados e, ainda hoje, um visitante de Crater Lake pode experimentar alguma da Oregon - Crater Lakesua magia. Parece-me quase irreal - tão azul, tão profundo e cercado por falésias de 600 metros. Não admira que o lago fosse tratado com tanto respeito pelos habitantes locais. Se começar a seguir os seus passos, acabará por observar um grande plano da paisagem espectacular de Oregon. Isto é mais do que umas férias em zonas selvagens - é uma viagem por uma paisagem rica em histórias, destinos humanos e tradições. Os nativos Americanos viveram no Planalto do Rio Columbia durante, pelo menos, dez mil anos, e muitas das culturas deste "novo" continente são mais antigas do que os próprios "denominados" descobridores vindos da Europa.
O antigo local de colonização, Nez Perce, é também um sítio que transmite energia e história. Imagine uma clareira na floresta, um enorme campo de flores e abelhas, cercado por árvores antigas. O resto terá de preencher a partir da sua própria imaginação: os cavalos da região, conhecidos pela sua rapidez, mulheres a entrelaçar cestos, crianças a brincar alegremente, homens vestidos com peles de alce, veado ou búfalo.
Actualmente, são poucas as pessoas que encontram o seu caminho neste local remoto. "Antigamente, havia centenas, milhares de acampamentos de índios nestes campos, incluindo o do jovem Chefe Joseph", conta-nos Tim Nitz. Quando os Nez Perce foram forçados a mudar-se das suas terras tradicionais, o carismático chefe tribal começou uma guerra amarga, sem esperanças, contra o exército dos homens brancos. No final, tentou escapar com 1.000 pessoas do seu povo para o Canadá. A retirada dos índios, ao longo de 2.000 km, acabou com a sua capitulação a 5 de Outubro de 1877 e captou a atenção de toda a nação - até a imprensa da Costa Este enviou correspondentes para testemunharem o evento. Centenas de guerreiros, mulheres e crianças morreram, sendo os sobreviventes desterrados para uma reserva em Oklahoma. Só seis anos mais tarde autorizaram o primeiro grupo a regressar a Nez Perce.
"Este foi o destino dos nossos antepassados", afirma Roberta Conner, uma descendente directa do Chefe Joseph. A sua função é contar às pessoas o que sabe da cultura e história do seu povo. Os antepassados de Conner vieram de três "nações", tal como os nativos Americanos se referem às suas tribos, de forma a realçar a sua soberania: Nez Perce, Cayuse e Umatilla. A mulher de 48 anos dirige o Instituto Tamástslikt, um projecto de museu moderno, na Reserva Umatilla, a nordeste de Oregon.
Quem tiver o prazer de assistir à exposição de Conner, vai experimentar a força que a tradição oral tem na mente dos índios. A história tribal coincide com a história da família, as fotografias históricas desdobram-se em retratos de família. "A minha bisavó Waiashish teve de abandonar a sua aldeia com 14 anos, quando esta foi destruída. Meteu-se numa canoa e remou rio acima", lembra Conner. Ao que se sabe, demorou semanas para alcançar uma tribo amigável que a acolhesse e, após dois invernos, casou com um índio Umatilla.
Florence - Oregon"Muitos dos vestígios populares que tínhamos desapareceram - ou já não somos propriamente índios porque usamos telemóveis", afirma com uma risada. "Mas ainda cá estamos." Durante muitos anos, a vida nas reservas era perturbada pelo desemprego, drogas e crime. Mas, actualmente, tudo mudou.
Hoje em dia, qualquer pessoa que viaje pelo estado de Oregon pode passear a cavalo, caminhar, fazer canoagem ou jogar golfe numa terra tribal. O Kah-Nee-Ta Resort, soberbamente localizado no topo das colinas da Reserva de Warm Springs, oferece aos seus clientes um spa de primeira classe e um casino. Os índios Americanos descobriram o jogo como fonte de rendimento em 1994. Os nove casinos de Oregon trazem rendimentos anuais de meio milhar de milhões de dólares, criando mais de 10.000 novos empregos.
Desde que os herdeiros do Chefe Joseph começaram a fazer dinheiro com o turismo, têm conseguido lançar programas sociais e campanhas de educação, comprando novamente as suas terras e repovoando os rios com salmão. "O salmão foi sempre um dos nossos alimentos base e um elemento importante da nossa cultura", explica Conner.
Muitas tradições conseguiram sobreviver e estão espalhadas pelos índios. "A maioria de nós ainda sabe pescar, caçar, construir tendas e cabanas." E como lidar com cavalos, devemos acrescentar. Conner é uma cavaleira apaixonada e perfeita, e vai, por vezes, "recuperar forças" com os seus cavalos, para a solidão das montanhas. "Olhe à sua volta," afirma ela à medida que entramos no vale do Rio Wallowa.Indio - Oregon
"Agora consegue perceber porque motivo o Chefe Joseph não queria abdicar desta terra." Um rio límpido, picos com o topo coberto de neve, vales glaciais, até mesmo uma montanha chamada Matterhorn - não admira que a região de Wallowa seja chamada a Suíça do Oregon. E esta área é também fortemente influenciada pela cultura cowboy. Os ranchos alinhados com a estrada, os cavalos e o gado que pastam no prado. O homem que, de manhã, entra nos cafés usa chapéus de abas largas e botas de montar.
As doses que tomam ao pequeno-almoço conseguiriam saciar-me por uma semana.
Após algumas horas de viagem ao volante do automóvel, na fronteira de Idaho, o Rio Snake segue o seu caminho profundo pelas montanhas. Antes de serem expulsos pelos homens brancos, os índios da tribo Nez Perce passavam aqui o inverno, tal como testemunham as pontas de setas, os almofarizes, os machados e os desenhos nos rochedos do chão quente do desfiladeiro.
Hell's Canyon é um dos mais profundos desfiladeiros da América, um abismo íngreme e gigante, onde o clima é seco e quente. Seguimos pelos rápidos num barco a motor, entre as altas falésias - uma grande aventura para nós e para Elliot, o sobrinho de 10 anos de Roberta Conner. A água salpica os passageiros enquanto o barco desce pelos blocos de pedra antigos.
Uma águia fêmea e as suas crias permanecem, impassíveis, numa árvore à beira rio. Também podemos encontrar no desfiladeiro ursos, cabras selvagens, lobos e pumas, bem como outros animais nativos.
Repetidamente durante as minhas viagens, ouço falar dos encontros com os leões da montanha, mas já o dia vai bastante avançado antes de me dizerem o que fazer se me encontrar com um. "Torne-se o maior que conseguir", aconselha o guia de montanha Dave Nissen. "Tente intimidar o animal. Se isso não resultar, terá de lutar com ele. Bata-lhe com força no nariz!" Oregon mantém-se um estado selvagem, com pouca população, que se orgulha de ser diferente: mais verde, mais saudável e mais desportivo. "Entusiasmamos os visitantes com a nossa qualidade de vida e, depois de ficarem realmente
interessados, pode ser que mudem para o Oregon", brinca Nissen.
Até a cidade de Portland, com os seus 1,8 milhões de habitantes, é diferente das outras cidades
norte-americanas, como uma loja tradicional é de um supermercado. No centro da cidade é possível fazer um agradável passeio pela colecção de arte Índia, desde a livraria Powell's aos restaurantes chiques do recentemente renovado Distrito de Pearl. Durante anos, a cidade esteve no topo da tabela americana de qualidade de vida urbana. E a uma mera meia hora de viagem de carro desde Portland, surge o Mount Hood, com os seus 3.425 metros, como uma enorme tenda branca. Os índios chamam-Ihe Wy'east.
Oregon -Painted HillsNo Oregon, nunca se está longe do mundo selvagem. Logo cedo pela manhã, vou fazer canoagem no Lago Spark, na crista das Cascade Mountains. Sisters Peak está embrulhado numa nuvem e no ar há um cheiro a terra húmida. A canoa desliza silenciosamente pela água, através de blocos musgosos que surgem das profundezas como criaturas antepassadas. Molha-me levemente, mas nada diminui a minha sensação de serenidade, aqui na natureza selvagem. Uma coluna de fumo sobe em direcção ao céu. "Bom dia", diz um homem que está a acampar no mundo selvagem. "Quer café?" Não há dúvida nenhuma: o recurso mais importante do Oregon é a sua paisagem e a simpatia dos seus habitantes.
Onde quer que vá, encontro-me com pessoas amigáveis com histórias interessantes para contar. Por exemplo, os dois pescadores armados com redes de descanso, nas plataformas de madeira das margens do Rio Deschutes, que me falam, com um brilho nos olhos, do enorme salmão que pode ser apanhado. Ou Violet Garrett, de Prospect, que costumava montar nas montanhas com a sua mãe, quando era pequena, e ainda se lembra de "um mar de mirtilos". Ou Rosalind Sampson, uma índia Sahaptan, que
me fala das estufas e de como tratavam ferimentos e tensão muscular com pedras quentes. Uns dias mais tarde, um massagista põe seixos quentes do rio nas minhas costas, massajando os músculos com a superfície macia das pedras.
Mas estou a ficar sem tempo. Adorava ficar mais tempo em Gold Beach ou Florence, passeando pela areia, com o Pacífico gelado a lavar os meus pés nus. As falésias costeiras ainda estão revestidas de nevoeiro, mas o Sol vai, lentamente, esculpindo contornos na brancura. Também adorava correr uma última vez nos canaviais de Siletz Bay ou sentar-me perto de uma fogueira a acabar o livro fascinante sobre a arte dos índios do Planalto, que um homem gentilmente me deu no Museu de Arte de Portland.Oregon - Lago Wallowa
Contudo, há uma coisa que estou determinado a não perder: o cerimonial mágico, powwow, perto da cidade de Eugene - uma celebração índia a que assistem membros de várias "nações", que acaba por ser um evento misto de reunião de família, feira e dança. No parque municipal de Coburg, os espectadores sentam-se em fardos de palha, muitos deles equilibrando nos joelhos pratos de cartão com hambúrgueres. O mestre de cerimonias, Xick Sixkiller, anuncia os grupos. "Uma salva de palmas
para os nossos protectores e guerreiros, portadores das penas de águia sagradas."
Um grupo de homens sentados em cadeiras articuladas começam a tocar um grande tambor e a cantar num poderoso tom uniforme. Os dançarinos têm sinos nas pernas e decorações feitas de pérolas, conchas e penas nas roupas, que são uma mistura de camisas de pele, roupa desportiva e couro. Quanto mais tarde, mais entusiasmados ficam com a dança. Arrastam-se, batem com os pés, fazem gestos ameaçadores e sacodem os seus corpos. Toda a actuação provoca-me arrepios. Os pele-vermelha realmente ainda existem - mesmo que agora vistam calções de nylon e liguem aos seus parentes
pelo telemóvel para comunicar os resultados da competição de dança.